Qual futuro queremos financiar?

Buscar mais do que o retorno financeiro nunca fez tanto sentido.

O economista Milton Friedman manifestou em 1970 no NYT que a razão de existência de uma empresa era dar retorno aos seus acionistas.

Essa afirmação me parece mais fora de moda do que investir em startups de patinetes elétricos. Como sociedade, temos tantos problemas a se resolver: Ambiental, Social, Político. Me parece muito pequeno pensarmos apenas em $.

Dito isso, enxergo a atividade do Venture Capital como muito mais do que apenas retorno do investimento. Quando olhamos as principais inovações do mundo, os fundos de VCs tiveram participação relevante: Eles financiaram a revolução da micro-computação, cloudcomputing, e-commerce, digital health, etc.

Logo, é inadequado idealizar que um VC só pensa em retorno. Um Venture Capital ajuda a moldar o futuro e precisa mensurar o impacto das empresas que está financiando (se o resultado composto pra sociedade for negativo, é preciso repensar se vale o investimento). Esse zeitgeist provocou a ascensão do ESG (meio ambiente, social e governança), que são principios relacionadas a operações sustentáveis.

Assisti recentemente Seaspiracy, do Netflix. Estamos a beira do colapso na vida marinha e se não mudarmos os hábitos alimentares, teremos impactos como (i) desequilibrio da fauna e flora marinha (ii) piora da saude humana (afinal consumimos peixe) (iii) deterioração de ecossistemas essenciais como os manguezais. No fim do dia, todos esses itens aceleram o aquecimento global e a transformação do mundo em um local inóspito (o que ameaça a raça humana).

E diante desse problemão, creio que os fundos de VC podem ajudar a minimizar a deterioração da vida marinha através algumas atitudes:

(i) Investimento em startups que substituem os peixes/frutos do mar

Fazenda Futuro, Impossible Foods, Beyond Meat estão fazendo um belo trabalho em prol do aumento do vegetarianismo e foram empresas financiadas via VCs. Já está nascendo uma safra de empresas buscando endereçar o mesmo problema para o mercado de peixes. Um exemplo é a Kuleana, que foi acelerada pelo YC e criou o "Fake Tuna”, a base de algas.

(ii) Investimento em startups de biologia sintética

O processo de simular uma carne/peixe/frango é o de reengenharia biológica. Sendo bem simplista, a proximidade do sabor advém da reconfiguração do DNA do animal (a partir de células tronco). Esse processo ainda é custoso e pouco acessível, o que é uma oportunidade para empresas que empoderem os novos entrantes através de soluções de reengenharia biológica.

(iii) Investimento em plataformas que conectem pescadores locais a consumidores

Dado que o grande malefício a vida marinha está na pesca industrial, faz sentido plataformas que conectem os consumidores com os pescadores locais. Isso aumentaria a renda local e permitiria uma alimentação menos industrializada para a população.


Em todos esses cases, além do impacto social, é possível um retorno condizente ao demandado pela indústria do Venture Capital.

-> O nosso input é o "smart money".

-> O output é a "transformação social" e “retorno financeiro”.

Se VCs financiam o futuro, precisamos pensar em qual futuro queremos.