O custo do poder
Guest Post: Luiz Cezar Fernandes
Hoje esta newsletter recebe um convidado de peso: Luiz Cezar Fernandes, fundador do Pactual — a casa que formou boa parte de uma geração inteira do mercado financeiro brasileiro.
O texto abaixo é dele: Luiz parte de uma pergunta que persegue todo regime político da história, de Roma às democracias modernas: como financiar o poder sem romper o contrato social que o sustenta. A resposta que ele encontra é desconfortável: Impérios, monarquias, ditaduras e social-democracias caíram pela mesma razão estrutural — o custo de governar cresceu mais rápido que a capacidade de pagá-lo. E o argumento dele é que a inteligência artificial está prestes a quebrar essa equação de novo, numa velocidade que nenhuma instituição democrática foi construída para absorver.
É o tipo de leitura que só alguém que passou a vida pensando em fluxo de capital consegue montar.
O ensaio nasceu de um jantar, numa conversa com Martin Junck, co-fundador da Musa, que ajudou o Luiz a organizar essas ideias no texto que você lê a seguir.
Mas antes de avançar, dois recados:
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O custo do poder: por que toda era cobra sua conta
A história costuma ser contada como uma sequência de regimes. Impérios, monarquias, ditaduras, democracias. Como se o problema fosse sempre o modelo político.
Não é.
O que atravessa todas essas formas de poder é uma tensão mais fundamental e muito mais simples: o custo de governar cresce mais rápido do que a capacidade de financiá-lo. Quando essa equação se rompe, o regime cai. Não importa o nome que carrega.
Impérios: a ilusão do crescimento perpétuo
A história idealiza que Roma colapsou por causa dos bárbaros, mas o real motivo é mais estrutural: ela ficou cara demais para existir.
Por séculos, a lógica imperial romana foi elegante: conquistar significava crescer, e crescer significava arrecadar mais. Cada província anexada financiava a próxima campanha. O sistema se auto alimentava.
Mas a expansão tem limite físico. Quando as fronteiras se estabilizaram, o modelo entrou em contradição consigo mesmo: os custos militares continuavam crescendo, a administração se tornava exponencialmente mais complexa, e não havia mais conquista nova para pagar a conta. No século III d.C., Roma chegou a ter 70 imperadores em 50 anos. Isso não decorreu da falta de liderança, mas porque o cargo havia se tornado financeiramente insustentável.
A rotatividade era o sintoma.
A alternativa então foi aumentar tributos sobre uma população já exausta, o que resultou no fim do império romano, que se consumiu por dentro, lentamente, por séculos, de forma inexorável.
Gradualmente, e então, de repente.
Monarquias: o Estado como fim em si mesmo
Com a fragmentação do mundo antigo, surgem estruturas mais organizadas: reinos, dinastias, cortes. A promessa era estabilidade. O problema estrutural era o mesmo, apenas com roupagem diferente.
As monarquias europeias construíram Estados sofisticados: burocracia permanente, exércitos profissionais, cortes que exigiam custo de manutenção contínuo. O poder já não precisava apenas guerrear, mas também performar sua própria grandeza.
O resultado foi previsível. Gastos crescentes, máquina estatal em expansão, pressão tributária sem limite político claro.
As pessoas idealizam que a revolução Francesa foi uma revolta por liberdade. Mas não é verdade: ela é uma crise fiscal que explodiu.
Em 1788, véspera da Revolução, 62% da receita do Estado francês era consumida apenas pelo pagamento de juros da dívida. O país estava, na prática, falido. Luís XVI perdeu porque o Estado não conseguia mais pagar suas contas.
Quando o dinheiro acaba, o consenso também acaba.
Regimes de força: o custo do controle total
O século XX produziu uma versão radicalizada do mesmo problema. Regimes como o de Stalin na URSS e de Hitler na Alemanha nazista levaram ao extremo a ideia de que o poder pode se sustentar pela força pura: repressão, propaganda, mobilização total.
Funcionou, por um tempo.
Mas o aparato de controle tem custo. Polícia política, campos, burocracia ideológica, militarização da economia, tudo isso precisa ser financiado. E economias sob controle total são, estruturalmente, menos eficientes. No auge da Guerra Fria, a URSS destinava estimados 25% do PIB aos gastos militares, o dobro do que os EUA gastavam proporcionalmente, enquanto sua economia produzia filas por comida básica. A URSS durou setenta anos antes de implodir sob o peso de sua própria máquina.
O custo do controle total é a destruição da própria base que o financia.
Democracias: o Estado que cresce pela demanda
As democracias modernas resolveram um problema que impérios e ditaduras nunca conseguiram: como fazer o poder parecer legítimo o suficiente para ser aceito sem repressão.
A resposta foi a distribuição. Direitos, serviços, proteção social. O Estado deixou de crescer pela força e passou a crescer pela expectativa.
É um mecanismo mais sofisticado. E, por isso, mais difícil de questionar politicamente.
Mas a equação fiscal é a mesma: Em 1870, o gasto público médio nas economias ocidentais era inferior a 10% do PIB.
Hoje ultrapassa 45%, e em países como França e Bélgica chega a beirar 55%. Esse crescimento não foi imposto: foi votado, reivindicado, celebrado. E agora precisa ser financiado por uma base tributária que não cresce na mesma velocidade.
A tensão volta a aparecer, não como imposição, mas como expectativa não cumprida. Que é, politicamente, ainda mais explosiva.
O padrão que nenhum regime escapa
Ao olhar essas fases, uma conclusão emerge com clareza incômoda:
A capacidade de sustentar economicamente o poder que exerce determina a duração de um regime.
Os impostos elevados, assim como a rotatividade de imperadores em Roma, é um sintoma visível de um descompasso estrutural entre o que o Estado promete e o que a sociedade consegue entregar.
Roma prometeu segurança e ordem. A monarquia prometeu estabilidade dinástica. Os regimes totalitários prometeram grandeza nacional. As democracias prometeram bem-estar crescente.
Todos pagaram, ou estão pagando, a mesma conta.
O que está realmente acabando
O problema é que a social-democracia não foi construída apenas sobre valores, mas sim sobre uma engenharia fiscal específica.
Pessoas trabalham. Empresas contratam. Salários são pagos. Renda é tributada. Consumo é tributado. Contribuições previdenciárias financiam aposentadorias.
O Estado moderno é, em grande parte, uma máquina desenhada para capturar parte do fluxo econômico gerado pelo trabalho humano.
Se esse fluxo muda de natureza, se a riqueza passa a ser produzida por capital computacional, modelos proprietários, automação e infraestrutura de IA, o problema deixa de ser apenas social. Torna-se fiscal.
Aqui é preciso ser preciso e corajoso.
O que o mundo ocidental está vivenciando não é o fim da democracia. É o fim da social-democracia como modelo econômico viável.
São coisas diferentes. E confundi-las é o erro mais comum do debate político atual.
A democracia, como sistema de escolha, alternância de poder e controle institucional, está em sua essência intacta na maior parte do Ocidente. Imperfeita, ruidosa, lenta. Mas funcional.
O que está implodindo é o tripé específico que sustentou o pós-guerra europeu por oitenta anos: Estado provedor robusto, financiado por tributação crescente, legitimado pela promessa de bem-estar universal e crescimento contínuo.
Esse tripé está rachando, não por ideologia, mas por aritmética.
A sentença demográfica
Toda a arquitetura da social-democracia foi construída sobre uma premissa: populações em crescimento. Mais jovens trabalhando para financiar menos aposentados. Mais contribuintes para cada beneficiário.
A demografia já enfraquece a base do sistema. A IA pode enfraquecer a outra metade da equação: o valor fiscal do trabalho humano.
O século XX foi financiado por uma população jovem, empregada, assalariada e tributável. O século XXI pode ser marcado por uma população mais velha, mais dependente do Estado e por uma economia onde a produtividade cresce sem gerar empregos na mesma proporção.
Trazendo dados: Em 1960, havia cerca de 7 trabalhadores ativos para cada aposentado nas economias da OCDE. Hoje essa proporção é de 4 para 1. Em 2050, será de 2 para 1. Todo o modelo de transferência inter-geracional, previdência, saúde pública, assistência social, foi calibrado para uma relação que não existe mais e nunca voltará. No Japão, símbolo mais avançado desse processo, já se vendem mais fraldas geriátricas do que fraldas infantis. No Brasil, a nossa taxa de fertilidade reduziu em mais de 3x nos últimos 60 anos.
É uma crise estrutural do modelo. A conta que a geração atual precisa pagar é estruturalmente maior do que a geração anterior pagou, e a próxima geração, menor em número, pagará mais ainda. Esse gráfico abaixo, da realidade americana, ilustra esse ponto: Enquanto pessoas com mais de 70 anos aumentaram seu share da riqueza em ~60%, gerações mais jovens perderam 40%.
Outro dado que impressiona: Pela primeira vez na história dos EUA, metade dos jovens de 30 anos ganha menos dinheiro do que seus pais aos 30.
Os dados são americanos, mas a realidade se expande para outras regiões: Sob uma perspectiva de qualidade de vida, globalmente, apenas 50% das pessoas entre 15 e 29 anos acreditam ter um padrão de vida melhor que seus pais. A América Latina é a segunda pior região, com apenas 45%.
Nenhum governo eleito tem coragem política de dizer isso com clareza. Mas a matemática não precisa de coragem.
O paradoxo dos campeões
Os países que melhor implementaram a social-democracia são os primeiros a sentir seus limites.
Suécia, Dinamarca, Holanda, os modelos que o mundo progressista celebra, já estão silenciosamente desmontando partes do sistema. A Suécia privatizou mais serviços públicos per capita do que qualquer outra economia avançada nas últimas três décadas, incluindo escolas, hospitais e sistemas de pensão, e ainda assim é celebrada como referência social-democrata e mesmo assim o seu sistema entrou em cheque pois os números não fechavam mais.
A Alemanha, motor econômico do projeto europeu, registrou crescimento negativo em 2023 e 2024, dois anos seguidos de contração, algo que não ocorria desde o início dos anos 2000. Seu modelo industrial, construído sobre energia barata e exportação para a China, entrou em colapso silencioso dos dois lados simultaneamente.
Quando os casos de sucesso começam a se reformar em silêncio é um sintoma de que o modelo está recuando.
O que vem depois: a pergunta que ninguém quer responder
Se a social-democracia está em declínio estrutural, o que a substitui?
Essa é a pergunta que o debate político ocidental se recusa a fazer com seriedade.
É mais fácil disputar quem administra melhor o modelo atual do que admitir que o modelo tem prazo de validade.
Algumas possibilidades emergem, nenhuma confortável.
Uma democracia com Estado significativamente menor, onde a proteção social migra para mercados privados e redes comunitárias. É o que os EUA praticam de forma imperfeita e caótica, e que muitos no mundo ocidental rejeitam sem propor alternativa.
Uma democracia com Estado ainda grande, mas financiado de formas diferentes: tributação sobre capital e patrimônio em vez de renda e trabalho, num mundo onde a automatização torna o trabalho humano progressivamente menos central para a produção de riqueza.
Ou, a possibilidade que ninguém quer nomear, uma reconfiguração autoritária do Estado redistributivo: governos que mantêm a promessa de bem-estar, mas abandonam o custo político da democracia liberal para entregá-la. Há sinais desse caminho em vários lugares.
Nenhuma dessas trajetórias é inevitável. Mas todas são possíveis.
A variável que ninguém está calculando direito
E então chegamos ao fator que torna esse momento diferente de todos os anteriores.
A inteligência artificial não é uma inovação tecnológica como as outras, mas uma ruptura na relação entre trabalho, produção e tributação, os três pilares sobre os quais todo modelo fiscal moderno foi construído.
A social-democracia, em sua essência, é um contrato tributário: o trabalho humano gera renda, a renda é tributada, o Estado redistribui. Simples. Poderoso. E inteiramente dependente de que o trabalho humano continue sendo o principal motor da produção de riqueza.
A IA desafia essa premissa de forma estrutural.
Quando máquinas executam tarefas cognitivas em escala, análise, diagnóstico, criação, decisão, a produtividade cresce sem que o emprego cresça proporcionalmente. A riqueza se concentra no capital que controla as máquinas, não no trabalho que elas substituem. A base tributária que financia o Estado encolhe, enquanto a demanda por proteção social dos deslocados pelo processo aumenta. O Goldman Sachs estimou que a IA tem capacidade de automatizar 25% de todas as tarefas de trabalho nas economias avançadas, não em décadas, mas na janela atual de adoção tecnológica.
É a maior disrupção no mercado de trabalho desde a Revolução Industrial, com uma diferença crucial: a Revolução Industrial levou cem anos. A IA está levando menos de dez.
É a mesma equação de sempre, custos crescendo mais rápido que a capacidade de financiá-los, mas com uma diferença decisiva: desta vez, a própria tecnologia que gera a riqueza é a mesma que corrói a base tributária que deveria financiar o Estado. O crescimento e o colapso fiscal acontecem simultaneamente, alimentados pela mesma fonte. Nenhuma era anterior enfrentou essa contradição em tal velocidade ou escala.
Roma teve séculos para sentir o esgotamento de seu modelo. A monarquia francesa gestou sua crise por décadas. A URSS levou setenta anos para implodir.
A IA comprime esse tempo de adaptação de forma que nenhuma instituição democrática foi construída para absorver. Parlamentos legislam em anos. Tecnologia avança em meses. Essa assimetria, por si só, é uma crise política em formação.
E há uma segunda dimensão, ainda mais profunda: ao longo da história, crises fiscais geraram rupturas políticas. Sempre. A pergunta não é se isso vai acontecer, é em que direção a ruptura vai se dar.
Sociedades que conseguem adaptar seus modelos fiscais e redistributivos à nova realidade tecnológica preservarão a democracia. As que não conseguirem, e o prazo é mais curto do que parece, buscarão outras respostas. A história conhece essas respostas. Não são agradáveis.
A conta sempre chega
A história não avança em linha reta. Não reinicia como um jogo.
Ela cobra.
Impérios, monarquias, ditaduras, social-democracias: todas são respostas diferentes para a mesma pergunta, feita em cada geração sob nomes diferentes. Como financiar o poder sem romper o contrato social que o sustenta?
Por oitenta anos, o Ocidente respondeu com uma fórmula específica: impostos altos, Estado grande, promessa de segurança do berço ao túmulo. A fórmula funcionou. E chegou ao seu limite.
Agora, pela primeira vez na história, essa pergunta precisa ser respondida num mundo em que a própria natureza do trabalho, a base de tudo, está sendo reescrita em tempo real, por máquinas, numa velocidade que não dá tempo de pensar.
O que está em crise não é a democracia. É a ilusão de que existe um modelo permanente. Não existe.
Existe apenas a pergunta, sempre de volta. Mais urgente do que nunca.
A conta já está vencendo.
Luiz Cezar Fernandes, Abril 2026
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